segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Projeto "Versos na Rua" será retomado



Em 2013 era realizado em Picos o projeto “Versos na Rua”. Seu objetivo era dar visibilidade às produções textuais, sobretudo poéticas, da população picoense e diminuir a tensão visual provocada pela fixação de cartazes com anúncios de festas e outras propagandas. Para isso foi feita uma campanha através da página do projeto no Facebook para coletar pequenos trechos de reflexões ou poesias entre os moradores da cidade que posteriormente seriam fixados em postes ou locais onde já existia poluição visual. Na época a iniciativa não contou com muitos adeptos, mesmo assim não impediu que a proposta fosse colocada em prática, o que acabou levando, em sua maioria, textos de grandes pensadores para as ruas. Agora o Coletivo MultipliCidade pretende retomar esse projeto e conta com sua colaboração para executá-lo. Portanto, se você deseja levar às ruas alguma reflexão ou poesia de sua autoria, entre em contato conosco através do e-mail coletivomultiplicidade@gmail.com ou da nossa página no Facebook e envie seu texto. Teremos o maior prazer usá-los em nossas intervenções urbanas.

Alguns dos cartazes do projeto Versos na Rua

Coletivo MultipliCidade participa de mutirão de limpeza da praça Félix Pacheco


A convite do artesão Antônio Silva, o Coletivo MultipliCidade participou de um mutirão de limpeza da praça Félix Pacheco na manhã do último domingo (28). Antônio Silva, conhecido em Picos como "Antônio Magro" ou "Piauí Ecologia" chegou recentemente à cidade após sair de São Paulo e realizar o trajeto até aqui de bicicleta. Chegando aqui ele chamou a atenção para a situação que a cidade se encontra em relação a sujeira, falta de arborização entre outros problemas. A atividade iniciou-se às 8h da manhã com o plantio de duas mangueiras na praça pelo artesão. Em seguida o grupo realizou a coleta de todo o lixo do local. Ao final foram coletados nove sacos de lixos que  se encontravam espalhados pelo chão e nos canteiros da praça. Antônio Silva ainda gravou alguns vídeos apontado a falta de educação da população que joga lixo em local impróprio e solicitou que a administração pública tomasse medidas para evitar a sujeira e conscientizar o público sobre a importância de manter a cidade limpa e arborizada. Ele retornará para São Paulo no próximo dia 02 de março, mas deixou para o Coletivo a missão de dar continuidade a esse trabalho. Dessa forma, esperamos contar com o apoio da população e fazemos o convite para quem tenha interesse em colaborar com as atividades, pois é muito fácil encontrar quem aponte o problema e faça críticas, porém são poucos os que estão dispostos e agir e transformar a realidade que lhe incomoda. Pequenos atos como esse fazem muita diferença, mesmo assim ainda é possível encontrar pessoas que debocham ou torcem o nariz sob o argumento de que esse trabalho é inútil ou não é obrigação nossa, mas para nós do Coletivo o bom desenvolvimento de uma cidade não depende apenas do Poder Público Municipal, mas da sociedade como um todo. 

   




Sobre street art, manifestações e ratos: “Guerra e Spray” (Banksy)

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Você passa pelas ruas todos os dias. Provavelmente sem prestar muita atenção à sua volta. É um caminho já conhecido, monótono. Não há nada em especial para chamar a atenção, certo? É a rua. Um espaço marginalizado, um espaço comum e sem novidades.

Até o momento em que você, por acaso, olha por mais de dois segundos para uma certa parede, e encontra algo que não estava lá. Algo intrigante, a princípio. Um painel. Uma imagem que parece conhecida, mas em que há algo que não se encaixa. Uma imagem debochada, destoante, ácida. Pode ser uma linda garotinha abraçada a uma bomba, ou um guarda pichando a parede. Ou ratos, sempre presentes em grandes cidades. E de repente a rua deixa de ser tão trivial. É nisso que se baseia o livro Guerra e Spray, uma espécie de “antologia” do trabalho do artista de rua Banksy: tudo deixa de ser trivial, e passa a ser incrivelmente significativo.

O autor e sua obra

A identidade do autor ainda é um mistério. Sabe-se que ele nasceu em Bristol, em 1974 (ou 1975), e que seus trabalhos se concentram na Inglaterra, apesar de estarem espalhados por outras cidades do mundo também. Seu trabalho vai além do grafite, sendo ele também pintor de telas e diretor de cinema (no caso, o documentário Exit Through the Gift Shop, seu primeiro trabalho, que lhe valeu uma indicação ao Oscar de 2011 por Melhor Documentário.)

Versátil, seu trabalho vai além dos muros das cidades britânicas. Ele já realizou trabalhos em Barcelona, Paris, Sydney, New Orleans, Palestina. Grafitou de muros de ruas a monumentos, de jaulas de animais de zoológico a vacas (sim, vacas). Com “esculturas” de cones, bonecos representando os presos de Guantánamo colocados em plena Disneyland, e pinturas “infiltradas” em museus, o trabalho de Banksy é subversivo, debochado, anárquico. E lindo.


O livro mostra diversos trabalhos dele, mas a princípio não segue uma lógica óbvia. E já começa cutucando, com a frase “O copyright é para perdedores.” Depois, são mostradas algumas imagens de trabalhos dele nas ruas de Londres. O texto seguinte resume um pouco o conceito do livro, que é o de defender o grafite como forma legítima de arte, e não como “poluição visual”. Para ele, a verdadeira poluição visual é aquele provocada pelas propagandas, enfiadas garganta abaixo das pessoas o tempo todo, e o grafite é uma forma de resistência contra eles, uma forma de fazer o mundo um lugar mais bonito.

A partir daí, o texto do livro se divide entre histórias e reflexões. Através deles, é possível conhecer um pouco mais as motivações do artista. Banksy é um provocador, e seu trabalho tem a intenção de causar choque o tempo todo. Muitos de seus grafites se tornaram icônicos, graças às poderosas mensagens incluídas neles. É o caso da primeira imagem da matéria, que vocês certamente já viram em outros lugares. São imagens que desconcertam, e que forçam a uma reflexão.


Banksy também se vale da paródia para passar sua mensagem. Aqui vale a pena falar de outro artista, chamado Marcel Duchamp. Ele foi um artista do começo do século, que causou furor ao incluir um mictório numa exposição e chamá-lo de arte (dentro da proposta de ready-made, objetos prontos que se “tornavam” arte), e por, em 1919, lançar a obra LHOOQ (que significa “Elle a chaud au cul”, literalmente, “ela tem fogo no rabo”). O que era essa obra? Nada mais do que uma Monalisa com um pomo-de-adão, bigode e barbicha. Muitas pessoas relacionam o trabalho de Banksy ao trabalho de Duchamp, porque ambos ironizam a arte e a questionam profundamente.


Ele também faz uma crítica pesada à guerra, à violência, às determinações capitalistas e a forma como elas determinam o modo de vida das pessoas, bem como ao sistema que as legitima. Os fragmentos de texto espalhados pelo livro mostram isso muito bem:

“Eu gosto de pensar que tenho a coragem de me levantar anonimamente numa democracia ocidental e clamar por coisas nas quais ninguém mais acredita – como paz e justiça e liberdade.”

Suas pinturas mostram soldados armados com rostos sorridentes. Crianças vendendo armas, abraçadas a bombas, helicópteros de guerra com laços cor-de-rosa. É a ridicularização da violência, não numa forma que diminua seu impacto, mas num sentido de mostrar o quão estúpido isso pode ser. Ao debochar da violência, ele a combate, à sua própria forma. Da mesma maneira, ao debochar das autoridades, mostrando os guardas reais britânicos cheirando cocaína, pichando paredes, ou simplesmente se beijando, ele também demonstra que não os leva a sério como força de defesa, e os questiona.



Outras intervenções que ficaram famosas foram pinturas dele nos museus. Não que um museu tenha se rendido à street art, mas pinturas que ele literalmente preparou, pendurou na parede do museu e esperou. Ele chegou a fazer isso no museu do Louvre, onde sua tela durou uma hora antes de ser retirada pela segurança. Essas pinturas foram compradas em sebos e lojas, sem identificação, e “pichadas”, alteradas por ele. Mais uma vez, surge a comparação com Duchamp: por ele ter colocado esses quadros lá, eles são “menos” arte? Sinceramente, acho que não. Trata-se apenas de uma outra forma de arte, menos preocupada com a beleza ou sentimentalismo e mais crítica e debochada.


Pessoalmente, minha série favorita é a dos ratos. Não pelos ratos em si, mas pela justificativa dela. “Se você é sujo, insignificante e mal-amado, ratos são o modelo de comportamento fundamental.” Os ratos resumem o trabalho de Banksy e o ironizam. Afinal, se formos pensar bem, a street art é o “rato” das artes, considerada puro vandalismo por muitos, menosprezada por outros tantos, e ainda assim resistindo a todas as dificuldades.  E é uma das imagens dessa série que tem a frase mais forte e provocativa do trabalho dele.


Em resumo, o livro Guerra e Spray é sensacional. Admito, não o teria lido se não fosse por uma disciplina da faculdade, cujo trabalho final era uma resenha da obra. Mas fico feliz por essa resenha ter me levado a conhecer um trabalho tão rico, diverso e intenso como o de Banksy. Ao final, ele dá dez dicas para se tornar um artista de grafite, e é de certa forma tentador. O livro inspira a tomar uma atitude e resistir a tantas agressões às quais somos expostos todos os dias. E, mais do que isso, o livro quebra preconceitos. A street art é muito bela, muito forte e muito legítima, e ao contrário das ditas “belas” artes, está ao alcance de todos. A rua é livre, então a arte nela se torna ainda mais importante.

Enfim, fica a sugestão. Leiam “Guerra e Spray”, e conheçam o trabalho de Banksy. Para quem quiser saber mais, o site oficial dele mostra todas as obras, divididas por local, bem como algumas informações sobre o trabalho dele em si. Vale a pena conferir, sem dúvida. Muito obrigada por lerem, espero que tenham gostado, e até mais.

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P.S.: obviamente, o tema não foi escolhido por acaso. O motivo foi mostrar que existe um milhão de formas de resistência e luta por um ideia, e a arte é definitivamente uma delas.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

ALEXANDRE KETO E O GRAFFITI COMO FERRAMENTA DE EMPODERAMENTO

por Kauê Vieira



Nascido na Zona Leste de São Paulo, no Parque São Lucas, Alexandre Keto é parte de uma geração que enxerga a arte como ferramenta importante de empoderamento. O interesse pelo mundo artístico se manifestou logo cedo, quando começou a fazer seus primeiros traços e a pintar. Tempos depois conheceu o graffiti e tudo que o liga, como a cultura hip hop, a linguagem urbana e reivindicações e busca por soluções de questões de âmbito social.


O contato com a cultura africana e o universo afro-brasileiro chegaram rápido na vida do artista, que inclusive se iniciou no Candomblé. Ao longo de sete dias, depois de ter os cabelos raspados e passado por um período de recolhimento, Keto teve o corpo pintado por um giz branco, parte de uma série de rituais que o farão um filho de santo – um yàwó. O giz se chama Efun e foi esse o nome de sua primeira exposição na capital paulista.




De acordo com o artista, o processo serviu para transformá-lo completamente e enxergar sua criação além do contexto visual, trazendo um ar de “intervenção direta ao ser humano”. “Eu acredito no papel da arte como uma ferramenta de transformação, que possibilita esta intervenção direta ao ser humano, que abra horizontes e transcenda em muitos aspectos vitais. Mas de uma forma real e acessível para que isso seja eficaz às pessoas,” explica em entrevista ao Afreaka.


É difícil dizer o que mais salta aos olhos nas curvas e cores de seus desenhos, contudo uma característica chama a atenção: o envolvimento social de Keto, que sempre procurou – por meio dos desenhos, promover um diálogo original entre a periferia e seus habitantes. Seguindo essa linha, o artista que já morou no Senegal, onde criou um projeto que tem como intuito pintar em países colonizados e colonizadores.




Os desenhos retratam aspectos da cultura Iorubá (habitantes da África Ocidental), Banto (localizados principalmente na África Subsaariana) e Ashanti (que vivem em Gana). Suas obras podem ser vistas em bairros de imigrantes africanos na Inglaterra, Portugal e França. Além disso, Alexandre Keto deixou sua marca em nações africanas como Gana, Benin e Angola. Para a produção dos desenhos, o jovem paulistano faz uso de tecidos trabalhados com spray, giz pastel e tinta acrílica.


Ao fazer questão de manter a ligação com suas origens negras e dialogar com a periferia, Alexandre Keto mostra que a arte precisa ser vista e sentida, especialmente por seus protagonistas. Retratando a cultura de países como Angola e Nigéria – nações que forneceram grande número de escravos ao Brasil, o grafiteiro, de alguma forma, mantém ligado o cordão umbilical que une africanos e brasileiros, além de contribuir para a formação de uma identidade negra contemporânea.



 Fonte: AFREAKA

Pichadora poética usa os muros de Curitiba como página em branco para falar de amor


A redatora e poeta paranaense Giovanna Lima, de 28 anos, acredita que a poesia é nobre demais para ficar longe da rua. Por isso, ao invés de colocar seus textos em um livro ou procurar as paredes fechadas das galerias, ela decidiu transformar os muros da cidade de Curitiba emoutdoors para seus poemas.
Já são centenas de pequenos poemas, centelhas sobre amor, feminismo, revolução, dor e vida– feito panfletos existenciais interrompendo o ritmo inclemente de uma cidade, ofertando uma porta aberta para a reflexão e a emoção de quem passa e vê.
Inspirando-se na máxima do artista de rua inglês Banksy que diz que é mais fácil conseguir perdão do que permissão, Giovanna não espera por autorização para realizar seu trabalho – e, diferentemente de Banksy que mantém seu anonimato, ela dá as caras e assume a autoria, assinando com as iniciais de seu nome cada uma das intervenções poéticas.

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Giovanna garante que, de maneira geral, recebe carinho e admiração das pessoas por seu trabalho. Ainda assim, por mais que sua arte venha fazendo bastante sucesso na cidade e nas redes sociais – sua página possui mais de 13 mil curtidas no Facebook – é claro que os críticos sempre existirão. Algumas pessoas consideram seu trabalho vandalismo, e não se comovem com a intenção poética e reflexiva de suas frases. Giovanna, no entanto, não se abala.

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A prefeitura de Curitiba, em nota, lembra que é a autorização prévia do proprietário é o que separa a arte do crime ambiental e dano ao patrimônio, e que os proprietários que se sentirem lesados poderão cobrar reparações de Giovanna na justiça. Assim, Giovanna não sabe por quanto tempo conseguirá seguir pichando – ela mesma gosta do termo “pichar” – sem ser punida.
Sua única certeza é que não deixará de escrever pois, para ela, vandalismo mesmo é não falar de amor.

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Fonte: Hypeness

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Coletivo MultipliCidade faz aniversário e comemora com intervenções no centro de Picos


No último dia 20 de fevereiro o Coletivo MultipliCidade completou uma ano de existência. Para festejar a data a equipe realizou intervenções urbanas com colagens de Lambe Lambe no centro da cidade e distribuição do panfleto comemorativo. Nessa atividade o Coletivo deu início à uma série de intervenções usando a arte do artista de rua britânico Banksy. A série escolhida foi a dos Ratos, bastante conhecida no mundo por retratar ratos em atividades humanas. Dessa vez também contamos com participação dos pequenos Gabriel e João, sobrinhos do Prof. Paulo Mafra, que se juntaram a nós na realização de algumas colagens. Confira as intervenções dessa atividade em nossa página no Facebook.

    

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Coletivo MultipliCidade comemora 1 ano de atividade.

Capa do panfleto para a comemoração de 1 ano do Coletivo MultipliCidade.


No próximo dia 20 de Fevereiro o Coletivo MultipliCidade estará completando 1 ano de existência. Para comemorar essa data tão especial a equipe realizará intervenções urbanas no centro da cidade e no Bairro Junco com a realização de colagem de Lambe Lambes, grafitagem e e panfletagem com o folheto produzido para a ocasião e que mostra um pouco do trabalho desenvolvido nesse tempo.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

DOCTA: A CONEXÃO COM O BRASIL E O GRAFFITI SOCIAL


Durante séculos Brasil e África ficaram separados por uma barreira criada pela mentalidade dominadora dos colonizadores. Contudo, nem com os esforços provenientes das nações europeias a conexão entre Brasil e o continente africano deixou de existir. A África está no sangue do brasileiro, no seu amor pela música, na ginga, nas palavras que saem da boca, no colorido das roupas, na arquitetura, enfim, a África vive no Brasil. E o mesmo pode-se dizer do país sul-americano em relação ao continente negro.


Cenário perfeito para ilustrar essa ligação é o Senegal, localizado na África Ocidental, sua capital Dakar está há apenas três mil quilômetros de Natal, capital do Rio Grande do Norte. As semelhanças são as mais diversas, desde o burburinho das feiras livres, os sabores da culinária, até a paixão pelo futebol – é impossível não notar o amarelinho das camisas da seleção brasileira vestindo homens, mulheres e crianças senegaleses andando pra lá e pra cá. O Brasil habita o imaginário africano e vice-versa. Esta conexão vai além das tradições e invade também os muros das grandes cidades, tomados por ilustrações e graffitis. Como no Brasil, no Senegal a arte urbana está ganhando cada vez mais força e se tornando uma arma política poderosa, transformando paredes em vitrines de denúncias nas mãos de jovens artistas.




Inserido no contexto de uma população ainda jovem e aberta para as novidades está o grafiteiro Docta, que dá voz a uma geração determinada a usar a arte como protagonista do desenvolvimento social. Versátil, é membro da turma de pioneiros do graffiti na África e fundador do Festigraff – primeiro festival internacional de graffiti do continente. Antenado com o mundo da cultura urbana e tudo que a cerca, Docta busca sempre adaptar o graffiti, que nasceu no ocidente, para sua realidade. O objetivo é usar os traços de seus desenhos e textos como meio de conscientização para a necessidade de educar, seja pelo direito à saúde ou pelo fim da violência. Para ele o graffiti serve para inspirar, sensibilizar e abrir mentes.


É nessa linha que nasce a Doxandem, fundação social fundada pelo artista, e que criou uma campanha usando o graffiti para alertar a população sobre problemas de saúde e doenças como diabetes, malária, tuberculose e HIV/Aids, pintando nos muros da cidade mensagens de conscientização como “Saúde não tem preço” e “Unidade na Diversidade”. Unindo arte e saúde, a campanha foi mais um exemplo do grafitti como arma de sensibilização e empoderamento da população, trabalho que inclusive lhe rendeu o nome “Docta” (Doutor). Com pensamento social e sempre questionando atitudes tomadas pelas autoridades, o artista demonstra que o graffiti é muito mais do que um simples desenho, na verdade ele é transformador e se apresenta como importante ferramenta na quebra de sistemas vigentes e de conceitos já ultrapassados.




Hoje, Docta, que também atua como formador e professor, é ainda responsável por transformar grafiteiros de diversos países da África e pelo resto do mundo em líderes sociais. Suas obras têm o objetivo de pensar a arte urbana de modo que ela sirva para a população, seguindo o conceito de que o grafite pertence a comunidade, e por isso tem que servir, defender e conscientizar seus membros. As palavras e imagens que escolhe para suas pinturas narram os desafios diários impostos pelo sistema, mas sempre apontando um novo caminho a ser seguido pelos que não concordam mais com certas linhas de conduta. A ideia de Docta é sim questionar, mas sem deixar de pensar alternativas para um presente e futuro mais harmônicos. Com seu trabalho Docta convoca outros artistas senegaleses para também usarem suas ocupações como um trampolim para uma melhor comunicação entre as pessoas e a cidade.


Um dos inúmeros trabalhos do artista localizados na capital senegalesa, Dakar, ocupa as paredes da Embaixada do Brasil e foi realizado durante um evento em dezembro de 2013 para celebrar a ligação entre os dois países. A arte escolhida por Docta leva um Cristo Redentor, máscaras carrancas e elementos da cultura africana, em um crossing de seus trabalhos com o imaginário coletivo da África sobre o Brasil. A ideia era desenvolver um projeto com aquilo que mais lhe agradava no fluir de ideias que tinha sobre o país tupiniquim agregado aos seus valores e alentos senegaleses. “Colocamos cor, colocamos arte e criamos uma mensagem. Acredito no graffiti cidadão e partilhado, para aplicar isso no mural (da Embaixada) e falar da conexão entre as duas regiões, não precisei procurar muito longe dos meus sentimentos”, explica em entrevista ao Afreaka sobre a conexão entre as duas regiões.


Conexão esta que não ficou apenas no muro da Embaixada brasileira em Dakar. Em junho de 2015, Docta esteve pela primeira vez no Brasil, durante o “Festival Afreaka – Encontros de Brasil e África contemporânea”, onde realizou um trabalho com o grafiteiro Alexandre Keto nos muros da Hemeroteca da Biblioteca Mário de Andrade na capital paulistana. Uma família africana, uma máscara de tons fortes e traços políticos, um Baobab e a frase ‘A África é a protagonista do desenvolvimento da África” pintados pelos grafiteiros no muro do centro de São Paulo deixam claro suas convicções e escancaram a união entre o continente africano e o Brasil, seja nas tradições e na história ou seja nas representações culturais contemporâneas. Ambos, engajados, acreditam sem hesitação na arte urbana como ferramenta social de construção e fortalecimento de ideais.

Vídeo em francês sobre o trabalho do Doxandem

Fonte: Afreaka